Reflexões sobre cultura gay e sexualidade

interlúdios

Publicado por: femmepiano em: janeiro 5, 2010

Queridíssi@s,

Sei que iniciei o Blog há mais de um mês e só escrevi um post até agora.

Idéias não me faltam, estou plena delas, louca para ter uma pausa nessa correria de estudos frenética em que me encontro.

Por isso, não desanimem e voltem a visitar, daqui a algum tempo, pois garanto conteúdo fresquinho (e polêmico) em breve.

Gostaria de acrescentar e endossar o convite feito pessoalmente a diversos de vocês, leitores e leitoras, para que enviem material para o Blog.

O espaço é aberto para vocês, não tenho outro objetivo senão fazer desse um espaço democrático para que todos possam colaborar.

Sintam-se à vontade para entrar em contato comigo, por meio do blog ou do email mariveiga@gmail.com, com sugestões de temas, dicas, textos próprios, enfim, vamos movimentar isso aqui!

Beijão…

M. (Femme Piano)

Por que eu odeio “The L Word”

Publicado por: femmepiano em: novembro 27, 2009

Em resposta a um texto que causou muito babado no site da Parada Lésbica, escrevi esta carta-ensaio.

Para quem se interessar, o debate original está em http://paradalesbica.com.br/2009/04/opiniao-de-um-hetero/

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Meu caro hetero, o seu problema começa justamente no enunciado do seu texto: NÃO TENHO PRECONCEITO? Faça-me o favor. Não quero bater nessa tecla pois esse ponto já foi brilhantemente argumentado pelas colegas da Parada Lésbica.

Acontece que, embora seu texto seja extremamente sexista e homofóbico, (não irei me debruçar sobre eufemismos ao comportamento que você espelha, mesmo que de forma inconsciente), ele faz levantar uma coisa que raramente nós, lésbicas, muito hesitamos em enxergar…

Agora quem faz o papel de advogada do diabo sou eu. Mas, além de saudável, essa troca de papéis permite fundir esse seu olhar distanciado (e, se não grosseiramente afirmo, absolutamente estrábico) a uma inquietação que vem de dentro.

Incomoda-me, de certa forma, essa fetichização da lesbianidade. Essas “meninas de calcinha”, como você diz, muitas vezes reduzem o sentido de um relacionamento homoerótico à provocação do espectador, relacionamento esse que raramente se concretiza para além da exposição ao olhar fetichizado dos homens, e, mais recentemente, das próprias mulheres.

Estaremos todos condenados à imitação do belo, do bom, e da felicidade plena, todos inatingíveis?

Será que não passamos de meros “teasers” de nós mesmas, de simulacros de relacionamento que vivemos, individual e narcisisticamente, e que refletem e se refletem naquilo que enxergamos nas telas do cinema e da televisão mais “alternativa”?

Ser lésbica PODE ser mais, muito mais, do que essa estética “The L Word” nos traduz; acho que essa representação de mulheres bem sucedidas, lindíssimas, e geralmente brancas de classe alta esconde uma virtude e um grande equívoco; e como nada na vida é linear ou “perfeito”, devemos encarar os dois com a cautela de um bom espectador.

A virtude, a meu ver, está, sobretudo, na visibilidade, que, embora traga tantos paradoxos, é o respiro necessário pelo qual aguardamos e lutamos durante tantos anos. poder existir em paz, simplesmente, e isso marca uma mudança cultural importantíssima.

A contrapartida é que essa transformação se faz, em grande medida, no bojo do capitalismo, como grande parte dos fenômenos atualmente; essa liberalização do tabu da sexualidade segue, quase sempre, uma tendência à higienização, ao sexo que não é sexo, ao amor que não ama, à espetacularização.

Falando especificamente do mercado de produções culturais voltadas a mulheres lésbicas, é incrível como esse movimento de “democratização dos espaços” no mercado do erotismo se dá em um jogo de cena, de blague, onde o que se revela é a produção de corpos perfeitos e de um erotismo totalmente previsível; tudo isso com cara de mundo real.

Nos reality shows, nos “dramas reais”, e mesmo no pornô que se pretende o máximo amador possível existe, o tempo todo, essa busca de se tatear uma dramacidade invisível: temos que gemer alto, temos que gritar, temos que nos insinuar como as mais belas e profissionais atrizes do prazer.

Devemos ser gostosas E bem sucedidas; temos que ser femininas ou masculinas, ativas ou passivas,  tudo segundo o caderno de receitas…

Não tenho nada contra o entretenimento. Não o trato como se fosse uma coisa banal; começo a ter um certo comichão de inquietude quando, por outro lado, essas representações começam a operar formas de opressão no mundo real. Por que aceitar a cabeleireira do The L Word e não uma “fancha de peixeira” da periferia? Por que aceitar a feminilidade esplêndida da Carmen (seria difícil o contrário!), e não as mulheres do dia-a-dia, que se constróem femininas como querem e podem?

Sinto que esse tipo de referência produz uma nova ditadura de estereótipos, que se imprime nos corpos e nas mentes de muita gente por aí… e, se cada um tem o direito de pensar o que quer, isso não quer dizer que as ideias e valores não devam ser discutidos, principalmente quando geram dinâmicas de opressões silenciosas entre nós mesmas.

Sempre me olham feio quando digo que não gosto de “The L Word”. E não consigo gostar. Primeiro que a trama me soa fake; não me identifico!!! E odeio essa ditadura do senso comum, de que por ser lésbica você TEM QUE GOSTAR da primeira (e única?) série que foi bondosamente idealizada PRA VOCÊ.

Não vou ciscar as migalhas, eu sinto muito, mesmo que elas apareçam tentadoramente corporificadas na forma de quase deusas apolíneas. Acho muito mais interessantes as metáforas geniais de “True Blood”, o humor provocante de “Beijando Jessica Stein”, até o romance da Lília Cabral com a Paula Burlamaqui na novela, o tal “romance sem beijo”, me causava mais simpatia.

Meu problema com “The L Word” é todo o teatro de construção da lesbianidade como fusão de formas pré-definidas de masculinidade e feminilidade. É como se, aos olhos do público, o fato de ser uma iniciativa “inovadora” lhe conferisse legitimidade para virar um discurso pop canônico sobre “o que é ser uma lésbica de verdade”. Nada contra o pop por definição, tudo contra o “mainstreaming” que nos acena com soluções prontas e torna nebulosa a possibilidade de irmos além.

Basta ir ao Vermont Itaim para ver, in loco, do que estou falando.


  • Nenhuma
  • Bau: Flor, apesar de eu gostar do seriado - mas confesso que não tive nenhum olhar crítico sobre ele, assisti como mais um episódio novelesco, preenchen
  • femmepiano: eu quero deixar muito claro aqui que não tenho nada contra mulher gostosa... Carmen por exemplo é um escândalo! mas não deixo de ter bode do seria
  • Danilo: Mari, Concordo plenamente com vc, o seriado é um festival de clichês... Mas confesso que tenho uma tara por algumas daquelas meninas... rs!

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